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Mortalidade materna: por que esse indicador ainda revela falhas graves no cuidado à gestante

A mortalidade materna é um dos indicadores mais importantes da qualidade da assistência à saúde da mulher. Ela reflete não apenas o risco de morte durante a gestação, o parto e o puerpério, mas também mostra como funcionam o pré-natal, o acesso aos serviços, a rapidez do atendimento e a capacidade do sistema de reconhecer e tratar complicações a tempo.

medicinaatualrevis6 min de leitura
Mortalidade materna

A mortalidade materna é um dos indicadores mais importantes da qualidade da assistência à saúde da mulher. Ela reflete não apenas o risco de morte durante a gestação, o parto e o puerpério, mas também mostra como funcionam o pré-natal, o acesso aos serviços, a rapidez do atendimento e a capacidade do sistema de reconhecer e tratar complicações a tempo.

Em 2023, cerca de 260 mil mulheres morreram no mundo durante a gestação, o parto ou o período logo após o nascimento, e a maior parte dessas mortes poderia ser evitada.

Falar sobre mortalidade materna não é tratar apenas de estatística. É falar de atraso no diagnóstico, dificuldade de acesso, desigualdade social, racismo estrutural, falhas no atendimento obstétrico e perda de oportunidades de cuidado. Por isso, esse tema é central em saúde pública: quando uma mulher morre por causas relacionadas à gravidez, muitas vezes o que está sendo revelado é uma sequência de falhas evitáveis no cuidado.

O que é mortalidade materna?

A mortalidade materna corresponde à morte de uma mulher durante a gestação ou em determinado período após seu término, quando a causa está relacionada ou agravada pela gravidez, pelo parto ou pelo puerpério. Esse conceito é importante porque ele não se limita ao momento do parto. Complicações podem ocorrer antes, durante e depois do nascimento, inclusive nos dias e semanas seguintes.

Na prática, esse indicador costuma ser expresso pela razão de mortalidade materna, geralmente calculada como o número de mortes maternas para cada 100 mil nascidos vivos. Esse número ajuda a comparar países, regiões e períodos históricos, além de orientar políticas públicas.

Por que a mortalidade materna ainda é alta?

Mesmo com avanços em obstetrícia, terapia intensiva, pré-natal e vigilância em saúde, a mortalidade materna continua sendo um problema importante em muitas partes do mundo. A maior parte das mortes maternas ocorre em países de baixa e média-baixa renda, mostrando que desigualdade social, fragilidade dos sistemas de saúde e acesso insuficiente à assistência qualificada continuam sendo fatores centrais.

Além disso, o progresso global desacelerou nos últimos anos. Houve queda importante da mortalidade materna desde 2000, mas a velocidade de redução diminuiu após 2016, o que acende alerta sobre a estagnação dos avanços.

Quais são as principais causas de morte materna?

As principais causas costumam ser bem conhecidas pela medicina e, justamente por isso, grande parte dessas mortes é considerada evitável quando há cuidado oportuno e qualificado.

Entre os grupos de causas mais importantes, destacam-se:

  • hemorragias;

  • transtornos hipertensivos da gestação, como pré-eclâmpsia e eclâmpsia;

  • infecções;

  • complicações do parto e do pós-parto;

  • abortamento inseguro em contextos específicos;

  • doenças prévias agravadas pela gestação.

Esse ponto é decisivo: muitas mortes maternas não acontecem por falta de conhecimento técnico sobre o que fazer, mas por demora em reconhecer a gravidade, dificuldade de encaminhamento, ausência de estrutura, falhas de comunicação e barreiras no acesso ao cuidado.

O que torna uma morte materna evitável?

Uma morte materna evitável é aquela que poderia ter sido prevenida com medidas adequadas em tempo oportuno. Isso inclui desde acesso a pré-natal de qualidade até disponibilidade de equipe treinada, exames, transporte, maternidade de referência e atendimento rápido diante de sinais de alarme.

Em muitos casos, a prevenção depende de reconhecer cedo situações como:

  • pressão alta na gravidez;

  • sangramento vaginal;

  • dor intensa;

  • febre;

  • falta de ar;

  • redução importante dos movimentos fetais;

  • convulsões;

  • piora clínica no pós-parto.

Quando esses sinais são ignorados, subvalorizados ou atendidos tardiamente, o risco aumenta. É por isso que a mortalidade materna está tão ligada à qualidade da linha de cuidado obstétrico.

Desigualdade também mata

A mortalidade materna não atinge todas as mulheres da mesma forma. Existem desigualdades profundas entre países e dentro dos países. Mulheres em contextos de pobreza, conflito, racismo, baixa escolaridade e menor acesso aos serviços costumam enfrentar riscos maiores.

No Brasil, o debate sobre mortalidade materna também passa por desigualdade de acesso, cuidado obstétrico de qualidade e inequidades raciais. O tema exige olhar para barreiras sociais, territoriais e institucionais que atrasam o diagnóstico e o tratamento.

O que pode ajudar a reduzir a mortalidade materna?

A redução da mortalidade materna depende de um conjunto de medidas, não de uma ação isolada.

As estratégias mais relevantes incluem:

  • pré-natal de qualidade e iniciado precocemente;

  • identificação de gestação de risco;

  • acesso a maternidades estruturadas;

  • equipe qualificada no parto e no puerpério;

  • reconhecimento rápido de sinais de gravidade;

  • disponibilidade de sangue, medicamentos e cuidados intensivos quando necessário;

  • vigilância dos óbitos e investigação dos casos;

  • políticas de equidade no acesso.

Também é fundamental lembrar que o cuidado não termina no parto. O puerpério imediato e tardio concentram riscos importantes, e muitas complicações graves podem surgir justamente após a alta. Por isso, acompanhamento no pós-parto, orientação adequada e acesso rápido à reavaliação clínica salvam vidas.

Por que esse tema importa para toda a sociedade?

A mortalidade materna é um marcador que revela o quanto uma sociedade consegue proteger mulheres em um momento de grande vulnerabilidade fisiológica e social. Quando esse indicador é alto, ele sugere que o sistema falhou em pontos essenciais: acesso, rapidez, acolhimento, diagnóstico e tratamento.

Além disso, cada morte materna afeta toda a rede familiar. O impacto não termina na mulher que morreu. Ele alcança o recém-nascido, os outros filhos, o parceiro, os cuidadores e a comunidade. Por isso, reduzir a mortalidade materna não é apenas melhorar um número em painel epidemiológico. É preservar famílias e reduzir perdas evitáveis.

Conclusão

A mortalidade materna continua sendo um problema relevante de saúde pública, apesar de muitos avanços técnicos e assistenciais. O mundo reduziu essas mortes nas últimas décadas, mas a queda desacelerou, e ainda há um número inaceitável de óbitos evitáveis relacionados à gravidez, ao parto e ao puerpério.

Em essência, falar sobre mortalidade materna é falar sobre prevenção, acesso e qualidade do cuidado. Pré-natal bem feito, parto assistido com segurança, vigilância ativa e resposta rápida às complicações são medidas que salvam vidas. Quando a assistência funciona, muitas dessas mortes não acontecem.

Informação em saúde não substitui avaliação individual por um profissional.

Atualizado em 25/03/2026.

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