Seu portal de conteúdo médico
Gastroenterologia

Pancreatite Crônica e Neoplasias do Pâncreas

O pâncreas possui funções endócrinas e exócrinas fundamentais para a homeostase corporal.

claurepires6 min de leitura
ilustração médica de pancreatite

Introdução

O pâncreas possui funções endócrinas e exócrinas fundamentais para a homeostase corporal. A Pancreatite Crônica (PC) e as Neoplasias Pancreáticas são condições associadas à inflamação crônica e a processos malignos que comprometem o parênquima pancreático. Este capítulo explora o diagnóstico, fisiopatologia, tratamento e prognóstico dessas condições.

Anatomia e Funções do Pâncreas

O pâncreas é responsável por funções endócrinas e exócrinas:

- Função endócrina: realizada pelas células das ilhotas de Langerhans, que incluem:

  - Células beta: secretam insulina.

  - Células alfa: produzem glucagon.

  - Células PP: liberam peptídeo pancreático.

  - Células D: produzem somatostatina.

- Função exócrina: realizada pelos ácinos pancreáticos, que produzem o suco pancreático. Este contém enzimas digestivas essenciais (tripsinogênio, amilase, lipase e protease), que auxiliam na digestão de proteínas, carboidratos e lipídeos.

Pancreatite Crônica

Epidemiologia

A pancreatite crônica afeta predominantemente homens, sendo que 70% dos casos estão relacionados ao consumo excessivo de álcool. Apenas 10% dos etilistas pesados desenvolvem a doença, sugerindo fatores predisponentes adicionais, como predisposição genética e fatores ambientais.

Etiologia e Fisiopatologia

A etiologia da pancreatite crônica pode ser memorizada pelo mnemônico TIGARO:

- Tóxico: álcool, hipercalcemia, hipertrigliceridemia.

- Idiopático: formas tropicais ou calcificantes.

- Genético: mutações em genes como PRSS1 e SPINK1, associadas à pancreatite hereditária.

- Autoimune: ativação de linfócitos contra o tecido pancreático.

- Recorrente: episódios repetidos de pancreatite aguda.

- Obstrutiva: estenoses, neoplasias ou pâncreas divisum.

A fisiopatologia da pancreatite crônica envolve inflamação contínua, que leva à fibrose interlobular e substituição do tecido acinar por tecido fibroso, com comprometimento do ducto pancreático.

Diagnóstico Precoce com Ecoendoscopia

A ecoendoscopia (EUS) é uma ferramenta importante no diagnóstico precoce da pancreatite crônica, especialmente nos estágios iniciais da doença, pois permite a observação detalhada do parênquima e ductos pancreáticos. Além disso, a elastografia por EUS tem sido explorada para medir a rigidez do pâncreas e diagnosticar a doença em estágios iniciais.

Quadro Clínico

A tríade clássica da pancreatite crônica inclui:

1. Dor abdominal: geralmente em epigástrio, irradiando para o dorso, com características de dor em "cinturão".

2. Insuficiência exócrina: caracterizada por esteatorreia (fezes gordurosas).

3. Insuficiência endócrina: com desenvolvimento de diabetes mellitus.

A dor é frequentemente exacerbada pela ingestão de alimentos gordurosos e álcool.

Diagnóstico

Os testes diagnósticos para pancreatite crônica incluem:

- Testes de função: glicemia de jejum, hemoglobina glicada, elastase fecal.

- Testes de imagem: tomografia computadorizada (TC), ressonância magnética (RM) e ecoendoscopia são recomendados para a visualização de alterações estruturais no pâncreas.

Testes Genéticos

Testes genéticos para mutações como PRSS1 e SPINK1 são recomendados em pacientes jovens com pancreatite crônica idiopática ou com histórico familiar de pancreatite. Isso permite a identificação de pacientes com pancreatite hereditária, que têm maior risco de desenvolver neoplasias pancreáticas.

Tratamento

O tratamento da pancreatite crônica inclui:

- Medidas gerais: cessação do consumo de álcool e tabagismo, além de orientações dietéticas, como redução de gorduras.

- Controle da dor: com analgésicos simples e opioides. Antidepressivos tricíclicos também podem ser usados como coanalgésicos para dor neuropática.

- Reposição enzimática pancreática: para melhorar a digestão e reduzir a dor causada pela pressão intraductal elevada.

Terapia Endoscópica e Cirúrgica

Nos casos de obstrução ductal ou complicações, a terapia endoscópica (litotripsia ou esfincterotomia) pode ser realizada. Casos refratários podem necessitar de intervenções cirúrgicas, como a pancreaticojejunostomia, que drena o ducto pancreático para o jejuno, ou a cirurgia de Whipple para ressecções pancreáticas.

Complicações

As principais complicações incluem:

- Pseudocistos pancreáticos: que podem comprimir estruturas adjacentes e requerem drenagem cirúrgica ou endoscópica.

- Obstrução duodenal ou biliar: causada pela fibrose ou pseudocistos, necessitando de descompressão cirúrgica.

- Neoplasia pancreática: a pancreatite crônica aumenta o risco de desenvolvimento de câncer pancreático.

Sarcopenia e Deficiência Nutricional

A insuficiência pancreática exócrina pode causar sarcopenia (perda de massa muscular), devido à má absorção de lipídeos e vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K), o que afeta significativamente a qualidade de vida dos pacientes.

Neoplasias do Pâncreas

Epidemiologia

As neoplasias pancreáticas mais comuns são os adenocarcinomas ductais, responsáveis por altas taxas de mortalidade. Os principais fatores de risco incluem:

- Tabagismo: um fator de risco importante para o câncer de pâncreas.

- Histórico de pancreatite crônica: aumenta o risco de malignidade.

- Predisposição genética: mutações nos genes BRCA2 e PRSS1 estão associadas a um risco elevado de neoplasia pancreática.

Quadro Clínico

Os sintomas incluem:

- Icterícia: devido à obstrução do ducto biliar por tumores na cabeça do pâncreas.

- Perda de peso: presente em estágios avançados.

- Dor abdominal: que pode simular a dor da pancreatite crônica.

Diagnóstico

O diagnóstico das neoplasias pancreáticas é feito por exames de imagem, como tomografia computadorizada (TC) e ressonância magnética (RM). A ecoendoscopia com biópsia é fundamental para o diagnóstico histológico.

Tratamento

O tratamento inclui:

- Cirurgia: como a cirurgia de Whipple, indicada para casos localizados.

- Quimioterapia: utilizada para tumores irressecáveis ou metastáticos.

- Terapia paliativa: para controle de sintomas em estágios avançados.

Prognóstico

O prognóstico das neoplasias pancreáticas é reservado, com baixa sobrevida em 5 anos. No entanto, a ressecção cirúrgica precoce oferece melhores chances de cura.

Pontos Importantes

- A pancreatite crônica é associada ao consumo excessivo de álcool em 70% dos casos.

- O uso de ecoendoscopia e testes genéticos são recomendados para diagnóstico precoce.

- A terapia de reposição enzimática e o controle da dor são pilares no manejo clínico.

- Pacientes com pancreatite crônica têm risco aumentado de desenvolver neoplasia pancreática.

Referências

- American College of Gastroenterology Clinical Guidelines on Chronic Pancreatitis, 2021.

- Pancreatic Cancer Action Network Clinical Updates, 2022.

- International Association of Pancreatology Guidelines, 2023.

- Consenso Brasileiro sobre Pancreatite Crônica, 2021.

Informação em saúde não substitui avaliação individual por um profissional.

Atualizado em 19/03/2025.

Você também pode gostar

Hematologia

Besremi (ropeginterferon alfa-2b): FDA aprova novo tratamento para trombocitemia essencial após quase 30 anos

Em 31 de agosto de 2026, a Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos aprovou ropeginterferon alfa-2b-njft (Besremi) para o tratamento de adultos com trombocitemia essencial (TE). A aprovação é notável por dois motivos: representa o primeiro tratamento aprovado especificamente para essa neoplasia mieloproliferativa em quase três décadas, e amplia o uso de um medicamento que já havia recebido aprovação do FDA para policitemia vera em 2021. A trombocitemia essencial é uma neoplasia...

4 min de leitura
Ler conteúdo
Infectologia

Dengue no Brasil em 2026: emergência epidemiológica, vacinação com Qdenga e o que os profissionais de saúde precisam saber

O Brasil declarou emergência em saúde pública de importância nacional por dengue em janeiro de 2026, após uma explosão de casos sem precedentes que já acumulava mais de 3,1 milhões de casos confirmados e prováveis nas primeiras 25 semanas epidemiológicas. A crise reflete a combinação de fatores históricos — alta infestação por Aedes aegypti, circulação simultânea de múltiplos sorotipos e baixa imunidade de rebanho — com condições climáticas favoráveis. Para os profissionais de saúde,...

5 min de leitura
Ler conteúdo

Instituições Parceiras Atendidas

Seja um parceiro
Suprema Juiz de ForaSuprema Três RiosHumanitasFADIP — Faculdade DinâmicaFaculdade de Gestão da Saúde

Desenvolvido por

Revisamed InteligenteMedProvasMedflixMedicinAtualPneumoAtual
Fale conosco

O que você quer encontrar?

Digite para ver os conteúdos encontrados. Use as setas do teclado para navegar.