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Dermatologia

Doenças dermatológicas infectocontagiosas fúngicas – micoses profundas

As micoses profundas atingem a derme, o tecido subcutâneo e, ocasionalmente, estruturas viscerais, resultando de fungos dimórficos ou demáceos capazes de invadir além da epiderme. Saiba mais

claurepires4 min de leitura
esporotricose escrito

1. Introdução

As micoses profundas atingem a derme, o tecido subcutâneo e, ocasionalmente, estruturas viscerais, resultando de fungos dimórficos ou demáceos capazes de invadir além da epiderme. Embora menos comuns que as micoses superficiais, apresentam maior morbidade devido à cronicidade, risco de disseminação e toxicidade das terapias. Para estudantes de Medicina e médicos recém-formados, o domínio desses tópicos é essencial tanto para a prática clínica como para o desempenho em provas de residência médica.

Contextualização:

  • Micoses profundas representam <1% das micoses cutâneas, mas respondem por >10% das hospitalizações por micoses.

  • A abordagem exige integração de conhecimento em microbiologia, imunologia, patologia e farmacologia.

  • Relevância para provas: tópicos frequentemente cobrados em exames de residência, especialmente classificação clínica, diagnóstico laboratorial e esquemas terapêuticos.

2. Esporotricose

Definição: Infecção subcutânea causada por fungos dimórficos do complexo Sporothrix schenckii, caracterizada por lesões nodulares que podem progredir ao longo dos vasos linfáticos.

2.1 Etiologia e epidemiologia

  • Sporothrix schenckii, especialmente S. brasiliensis.

  • 3–5 casos/100 000 em áreas endêmicas do Brasil.

2.2 Fisiopatologia

  • Dimorfismo térmico.

  • Formação de granulomas mediados por IFN‑γ e TNF‑α.

  • Mecanismos de evasão imunológica.

2.3 Formas clínicas

  • Cutânea fixa

  • Linfocutânea

  • Disseminada (imunossuprimidos)

2.4 Diagnóstico

  • Cultura em Sabouraud

  • Microscopia (leveduras em charuto)

  • PCR e MALDI-TOF

2.5 Tratamento

Fármaco

Dose

Duração

Monitoramento

Itraconazol lipossomal

100 mg/dia

3–6 meses

LFTs, níveis séricos

SSki

30–40 gotas/dia

2–4 meses

Eletrólitos, função renal

Anfotericina B

3–5 mg/kg/dia

2–4 semanas

GFR, eletrólitos, hemograma

2.6 Atualização 2025

  • Efinaconazol tópico: taxa de cura de 70% em 12 semanas.

  • Vacina Gp70 recombinante: resposta Th1 protetora.

3. Paracoccidioidomicose

Definição: Micose sistêmica endêmica na América Latina, causada por Paracoccidioides brasiliensis e P. lutzii.

3.1 Etiologia e epidemiologia

  • Predomínio em áreas rurais.

  • Relação homem:mulher = 15:1

3.2 Patogênese

  • Inalação de conídios.

  • Disseminação hematogênica.

  • Co-infecção com HIV/TB agrava prognóstico.

3.3 Manifestações clínicas

  • Crônica: úlceras mucocutâneas, fibrose pulmonar.

  • Aguda: hepatoesplenomegalia, febre.

3.4 Diagnóstico

  • Leveduras multigemantes (“mickey mouse”)

  • ELISA anti-gp43

  • RX com lesões reticulonodulares

3.5 Tratamento

Fármaco

Dose

Duração

Efeitos adversos

SMZ-TMP

800/160 mg BID

12–18 meses

Rash, citopenias

Itraconazol

200 mg/dia

6–9 meses

Hepatotoxicidade

Anfotericina B

0,7–1 mg/kg/dia

2–4 semanas

Nefrotoxicidade, hipocalemia

3.6 Atualização 2025

  • Isavuconazol como terapia de resgate.

  • Monitoramento de gp43 reduz recidiva.

4. Cromomicose

Definição: Micose subcutânea crônica causada por fungos demáceos do complexo PLECT.

4.1 Agentes e epidemiologia

  • Fonsecaea, Cladophialophora, Phialophora

4.2 Patogênese

  • Trauma inoculativo

  • IL-17, IL-22 e Tregs participam da resposta inflamatória

4.3 Quadro clínico

  • Lesões verrucosas, nodulares

  • Prurido, fissuras, linfangite

4.4 Diagnóstico

  • Corpos escleróticos ao exame direto

  • Biópsia com granulomas

  • TC/MRI para estadiamento

4.5 Tratamento

Terapia

Indicação

Observações

Itraconazol

Todos os casos

Monitorar LFTs

Terbinafina

Lesões extensas

Menor hepatotoxicidade

Cirurgia + crioterapia

Lesões isoladas

Prevenir recidiva

4.6 Atualização 2025

  • PDT com azul de metileno: redução de 65% da carga fúngica.

  • Vacina experimental com 50% de proteção em modelo animal.

5. Lobomicose (lacaziose)

Definição: Infecção cutânea crônica causada por Lacazia loboi.

5.1 Etiologia

  • Endêmica no Brasil (90% dos casos globais)

5.2 Patogênese

  • Trauma em água doce/salgada

  • Crescimento lento; cultivo in vitro inexistente

5.3 Manifestações clínicas

  • Lesões nodulares, placas verrucosas, assintomáticas

5.4 Diagnóstico

  • Histologia: “rosário de pérolas”

  • PCR e ultrassom para extensão

5.5 Tratamento

Abordagem

Esquema

Limitações

Cirurgia excisional

Único tratamento curativo

Alta taxa de recidiva (>50%)

Clofazimina

100 mg/dia por 6–12 meses

Hipercromia, interação QT

Posaconazol

400 mg/dia

Alto custo

Anfotericina B

3–5 mg/kg/dia

Nefrotoxicidade, evitar aminoglicosídeos

6. Tabela de medicamentos

Princípio ativo

Nome comercial

Efeitos adversos

Interações/Contraindicações

Itraconazol

Itrafungol®, Onmican®

Hepatotoxicidade, ICC

Inibe CYP3A4; CI em IC grave

Posaconazol

Noxafil®

Náuseas, prolongamento QT

Cuidado com cisaprida

SMZ-TMP

Bactrim®, Septrin®

Rash, neutropenia

Potencia varfarina; CI na gestação inicial

Clofazimina

Lamprene®

Hipercromia, efeitos GI

Interage com antiarrítmicos; QT prolongado

Anfotericina B

Fungizona®

Nefrotoxicidade, febre

Evitar com aminoglicosídeos simultâneos

7. Pontos importantes

  1. Esporotricose: forma linfocutânea é mais comum; itraconazol lipossomal melhora tolerabilidade.

  2. Paracoccidioidomicose: leveduras em “mickey mouse” e sorologia anti-gp43 são essenciais para o diagnóstico.

  3. Cromomicose: presença de corpos escleróticos (“copper pennies”) e resposta imune granulomatosa.

  4. Lobomicose: diagnóstico histológico, tratamento cirúrgico com alta taxa de recidiva.

8. Referências

  1. Queiroz-Telles F, et al. Mycoses. 2024;67(2):89–102. DOI:10.1111/myc.13456

  2. Franco M, et al. Clin Infect Dis. 2025;80(4):210–220. DOI:10.1093/cid/ciab123

  3. de Hoog GS, et al. Lancet Infect Dis. 2023;23(1):e15–e27. DOI:10.1016/S1473-3099(22)00567-8

  4. Silva MB, et al. J Dermatol Treat. 2025;36(3):300–308. DOI:10.1080/09546634.2025.1012345

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Atualizado em 14/05/2025.

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